Alexandre de Moraes e Nunes Marques: quem ri por último?
· Val-André Mutran / Ver-o-Fato
O segundo turno da disputa presidencial reduziu a semana decisiva de 2026 a dois tabuleiros entrelaçados: o Tribunal Superior Eleitoral, palco do embate entre o presidente da Corte, Kassio Nunes Marques, e a campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e o Senado, onde a PEC do fim da escala 6×1 foi convertida em arma eleitoral. Nos bastidores, a ofensiva de Flávio Bolsonaro (PL) no Nordeste completa o quadro de uma eleição que se decide tanto nas urnas quanto na percepção pública de isenção das instituições.
Decisões que antecederam o estopim A crise não nasceu no domingo. Em 7 de outubro, Nunes Marques rejeitou pedidos petistas para retirar do ar vídeos de Flávio que associam Lula a críticas ao STF e o filho Fábio Luís, o Lulinha, a investigações sobre fraudes no INSS, mantendo ainda a peça em que o candidato do PL afirma que Lula “dividiu poder” com Alexandre de Moraes. Levantamentos contabilizam ao menos quatro julgamentos virtuais interrompidos pelo presidente do TSE quando já havia maioria formada a favor de Lula, e, em junho, ele também suspendeu pesquisa AtlasIntel/Bloomberg que apontava queda do candidato do PL.
O vaivém do “Exército do Lula” O estopim veio no domingo (11), quando Nunes Marques atendeu pedido da campanha de Flávio e determinou à Meta a suspensão do canal “Exército do Lula” em até três horas. Criado pelo deputado André Janones (Rede-MG), o grupo saltara de 55 mil para mais de 3,4 milhões de seguidores em menos de uma semana e teria virado, nas palavras do ministro, “vetor de disseminação” de conteúdos já reconhecidos pela Justiça Eleitoral como “desprovidos de lastro mínimo”. O despacho saiu menos de 24 horas após a petição bolsonarista, antes do fim dos prazos concedidos pelo corregedor à própria campanha de Flávio.
Reversão horas depois A resposta veio de dentro do próprio tribunal. No mesmo dia, o corregedor-geral eleitoral, Ricardo Villas Bôas Cueva, suspendeu preliminarmente a ordem, recolocou o canal no ar e enviou o caso ao plenário. Ministros ouvidos pelo Valor Econômico classificaram a decisão do presidente como “totalmente incomum” e geradora de desconfiança interna; juristas defenderam que a palavra final cabe ao colegiado, não à Presidência da Corte. Ao longo do vaivém, o TSE não localizou, de imediato, as notícias falsas apontadas pela campanha de Flávio.
Notícia de fato contra o ministro Na segunda-feira (12), os deputados Rui Falcão (PT-SP) e Rogério Correia (PT-MG) protocolaram no STF uma notícia de fato contra Nunes Marques, citando suspeitas de corrupção passiva, lavagem de dinheiro, exploração de prestígio, prevaricação e participação em organização criminosa, com suposto elo entre o ministro e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. O documento, endossado por relatórios da Polícia Federal já citados pela imprensa, menciona pagamentos mensais de R$ 500 mil associados ao filho do magistrado, contratos advocatícios de até R$ 427 milhões e viagens de luxo custeadas pelo banqueiro. Nunes Marques nega tudo e afirma nunca ter mantido contato com Vorcaro.
O ônus metodológico da acusação Cabe registrar o óbvio: notícia de fato aponta alegações a investigar, não fatos apurados, e o próprio vaivém das decisões — com o corregedor revertendo o presidente — relativiza leituras lineares de parcialidade. Ainda assim, o pedido amplia a temperatura do conflito e devolve ao centro do debate institucional a pergunta que atravessa os dois últimos ciclos eleitorais: até que ponto a atuação individual de quem preside a Corte eleitoral interfere na percepção pública de imparcialidade?
A terça-feira que endureceu o embate Na terça (13), Nunes Marques derrubou a decisão de Cueva, voltou a suspender o canal e impôs condições: registro do endereço na Justiça Eleitoral em até 48 horas e permanência fora do ar até a regularização. Foi além — afirmou que a coligação de Lula e o próprio candidato podem ser responsabilizados por uso irregular, com base no art. 57-B, § 5º, da Lei 9.504/1997. Janones foi proibido de replicar conteúdos inverídicos e de orientar seguidores a contornar ordens da Justiça Eleitoral; o canal comunicou 48 horas de silêncio e migrou o comando para o Instagram, enquanto a Meta terá 24 horas para relatar ao tribunal as providências adotadas.
O preço de decidir sozinho A sequência expõe o dilema estrutural da presidência do TSE: poderes monocráticos expressivos justamente no momento de máxima polarização do ciclo. Cada decisão — rápida para um lado, lenta para o outro — é imediatamente traduzida em narrativa de parcialidade. A campanha petista explora o critério seletivo segundo o qual pedidos de Flávio tramitaram com velocidade incomum, enquanto pleitos de Lula permaneceram travados.
O espelho de 2022 O passado recente invade o debate com força. Em 2022, sob a presidência de Alexandre de Moraes, o TSE atendeu Lula 37 vezes contra 6 de Bolsonaro em ações de combate a notícias falsas até 14 de outubro, que registrou 42 a 6 no mesmo período. O então candidato perdeu 170 inserções de TV após decisões do tribunal e, em abril de 2025, chegou a afirmar publicamente que Moraes teria “feito um golpe” para eleger o petista. A acusação de hoje repete o padrão, apenas com os campos invertidos.
As qualificações do espelho A simetria, porém, pede contrapontos. Na semana de 17 de outubro de 2022, o TSE derrubou propaganda dos dois lados por informações falsas, e o próprio Moraes votou contra peça petista que associava o adversário a canibalismo. Em abril de 2018, ele dera o segundo voto contra o habeas corpus preventivo de Lula, negado por 6 a 5; a reversão da elegibilidade só viria em 2021, por decisão de Edson Fachin. E, em setembro último, Nunes Marques e Dias Toffoli declararam-se impedidos de votar no julgamento sobre a abertura de investigação contra Moraes.
O teste público da Corte A convocação de reunião com as campanhas de Lula e Flávio para discutir desinformação e regras do segundo turno, marcada para a tarde desta terça, sinaliza contenção de danos, mas não dissolve a desconfiança mútua. A Justiça Eleitoral, instituída para decidir rápido e bem, vê-se obrigada a provar continuamente aquilo que sua existência pressupõe: que a imparcialidade não é apenas princípio, mas prática perceptível. O julgamento do “Exército do Lula” pelo plenário e a eventual tramitação da notícia de fato serão os primeiros testes públicos dessa capacidade.
PEC 6×1 vira trincheira No Senado, a PEC 221/2019, que põe fim à escala 6×1, ocupa a pauta da semana: a votação em primeiro turno foi marcada por Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) para quarta-feira (14), após duas sessões de debate. O texto, já aprovado pela Câmara em maio e pela CCJ em setembro, exige 49 dos 81 votos em cada turno. O governo corre para concluir as duas votações antes de 25 de outubro, convertendo a pauta trabalhista em trunfo eleitoral a 11 dias do desfecho.
Oposição deve liberar bancada O PL deve liberar seus senadores, segundo Wellington Fagundes (PL-MT), líder do bloco de oposição: embora a coordenação da campanha de Flávio, voz de Rogério Marinho (PL-RN), prefira abstenção, a maioria da bancada avalia que é preciso se posicionar. Tereza Cristina (PP-MS) foi escalada para mediar as conversas com Alcolumbre, e a estratégia — que inclui esvaziar quórum e apresentar emendas que estendam a transição para seis meses — deve ser definida em almoço da oposição. Carlos Portinho (PL-RJ) resumiu o clima ao chamar a PEC de “carro desgovernado, eleitoreiro descendo ladeira abaixo”.
O movimento de Flávio Nesta terça, Flávio anunciou que votará a favor do fim da escala — mas defende “algo melhor”: um regime flexível em que o trabalhador negocie a jornada com o empregador, proposta afinada com Marinho. O movimento tenta extrair de Lula a exclusividade da bandeira sem abandonar o discurso liberal, num aceno às centrais sindicais que a oposição considera arriscado para a base bolsonarista.
A pressa do governo Para acelerar o cronograma, a líder do governo, Teresa Leitão (PT-PE), deve apresentar até quarta-feira requerimento de calendário especial para quebrar o interstício regimental. O regimento exige cinco sessões de discussão antes da primeira votação — três já foram realizadas — e, após a aprovação, cinco dias úteis e mais três sessões até o segundo turno, prazo que pode ser suprimido por requerimento. Nos bastidores, a votação é tratada tanto como teste de força legislativa quanto como termômetro eleitoral.
Impactos e transição da jornada Pela proposta, a PEC entra em vigor 60 dias após a promulgação, com queda da jornada de 44 para 42 horas semanais e, um ano depois, para 40 horas, sem redução salarial. Discute-se ainda abrir exceções para categorias em regime de escala, como petroleiros e aeroviários. Para o governo e as centrais, é promessa concreta entregue às vésperas do pleito; para a oposição, um “eleitoreirismo” cujo custo econômico será cobrado no futuro.
Flávio rearma o Nordeste Longe de Brasília, a campanha do PL reorganiza-se para a reta final. Flávio passou a primeira semana do segundo turno reestruturando a estratégia, e o foco é o Nordeste — única região onde perdeu para Lula, apesar de ter superado os votos do pai em 2022. O vice Alfredo Gaspar volta a percorrer a região, começando por Alagoas, seu domicílio eleitoral, num desenho que aposta no capital político local para encurtar a distância do petista.
Palanques liberados e Michelle em campo Com as alianças com partidos do centrão fechadas, Flávio deve aparecer em palanques com apoio explícito — ao contrário do primeiro turno, quando aliados o evitavam para não afastar eleitores lulistas. A primeira agenda é na Bahia, ao lado de ACM Neto e do prefeito de Feira de Santana, José Ronaldo. Michelle Bolsonaro, por sua vez, atua em eventos focados em mulheres e religião com Damares Alves, para rebater boatos sobre o candidato, em viagens bate-volta impostas pela rotina de cuidados com Jair Bolsonaro, em prisão domiciliar; no Amazonas, apoia Maria do Carmo contra Omar Aziz, e deve visitar mais três capitais nordestinas.
A lição das vielas de Veneza Para encerrar a pauta, uma nota leve que a coluna não poderia ignorar: as curvas de pedra das vielas venezianas, os “gobbe antibandito”, foram concebidas para impedir emboscadas em esquinas e desestimular o uso das ruelas como banheiros públicos — a superfície inclinada devolvia a urina ao infrator. A defesa de sua adoção nas metrópoles brasileiras, “terra indomável de mijões a céu aberto”, ironiza um país que exige civilidade urbana sem oferecer estrutura mínima. Entre a Corte em ebulição e o Senado em campanha, permanece a pergunta de fundo: como decidir rápido, bem e parecendo imparcial — em qualquer terreno.
Val-André Mutran é repórter especial do Portal Ver-o-Fato e está sediado em Brasília.
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Fonte: Ver-o-Fato, por Val-André Mutran. Publicação original: 13/10/2026 às 13:00.
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