Apoio a Lula expõe contradições de aliados de Daniel e racha interno no PT de Ananindeua
· Mayra Peniche / Estado do Pará Online
A disputa presidencial de 2026 tem exposto contradições entre o discurso público e as alianças políticas construídas no Pará. Enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tenta ampliar sua mobilização para o segundo turno, lideranças que já estiveram no mesmo campo político ou que declaram apoio à reeleição do petista demonstram diferentes níveis de envolvimento com a campanha. No estado, os casos da ex-candidata ao Senado Lívia Noronha, do dirigente Arnaldo Jordy e da disputa interna no PT de Ananindeua ajudam a dimensionar esse cenário.
O quadro envolve interesses eleitorais, mudanças de posicionamento e conflitos entre grupos que, embora compartilhem formalmente determinados apoios, não necessariamente atuam de maneira unificada. Em Ananindeua, a disputa pela direção municipal do PT também tem consequências para a relação do partido com o prefeito e governador eleito Dr. Daniel Santos, que declarou apoio ao senador Flávio Bolsonaro (PL) na corrida presidencial.
Lívia Noronha tenta separar apoio a Daniel de posicionamento presidencial
A situação de Lívia Noronha representa uma das contradições mais evidentes desse cenário. Professora e filósofa, ela construiu parte de sua trajetória política na esquerda, passou pelo PSOL e pelo PT e, em 2026, disputou uma vaga no Senado pelo Solidariedade, dentro de uma aliança que apoiou Daniel Santos para o Governo do Pará.
Durante a campanha estadual, a aproximação com Daniel colocou Lívia em um campo político diferente daquele que marcou parte de sua trajetória anterior. Em setembro, o Estado do Pará Online publicou um raio-X da candidatura, destacando a mudança de alianças e o fato de ela declarar apoio a Lula para a Presidência, mesmo integrando o grupo político que sustentava a candidatura de Daniel.
Após o governador eleito anunciar apoio a Flávio Bolsonaro, Lívia publicou um vídeo para explicar seu posicionamento. Na manifestação, ela procurou separar sua escolha presidencial da decisão do aliado com quem dividiu o projeto eleitoral no Pará. A justificativa é que sua proximidade política com Daniel não significaria uma obrigação de acompanhar qualquer decisão dele na disputa nacional.
O argumento é politicamente possível: alianças estaduais não determinam, necessariamente, o voto presidencial de todos os seus integrantes. A questão, porém, é a coerência entre o discurso e a prática. Ao aceitar integrar uma aliança que sustentava Daniel, Lívia também passou a dividir espaço com um projeto político que se aproximou explicitamente do bolsonarismo.
A contradição ganha força porque não se trata apenas de uma divergência pontual sobre a Presidência. Daniel declarou apoio a Flávio ainda durante a campanha e reafirmou a posição depois de ser eleito governador. A candidatura de Lívia ao Senado, portanto, foi construída em uma composição que reunia projetos nacionais distintos.
A declaração de apoio a Lula pode representar uma escolha individual legítima, mas não elimina o questionamento sobre como a candidata conciliou sua trajetória na esquerda com a participação em uma aliança eleitoral liderada por um político que hoje apoia o principal adversário do presidente.
Gravidez e trajetória política também entram no contexto de Lívia Noronha
A participação de Lívia Noronha nas mobilizações de apoio a Lula também precisa ser analisada considerando fatores pessoais e sua trajetória política. Segundo informações repassadas à reportagem por uma fonte que mantém contato com pessoas próximas à candidata, a equipe de Lívia estaria se articulando com Celso Sabino para organizar eventos de campanha, mas não há confirmação de que as atividades tenham sido realizadas.
Lívia está no sétimo mês de uma gravidez de gêmeos, considerada de risco, circunstância que pode limitar sua participação presencial em compromissos políticos. Não há, porém, confirmação de que essa seja a razão para uma eventual redução de sua presença pública. Por isso, a ausência em mobilizações ou a falta de novas manifestações nas redes sociais não deve ser interpretada automaticamente como afastamento da campanha de Lula.
Outro elemento que ajuda a compreender sua aproximação com Daniel Santos é o histórico de relações políticas da candidata. Nos bastidores, há relatos de que Lívia teria se sentido prejudicada em suas passagens pelo PT e pelo PSOL e encontrado no grupo de Daniel espaço para disputar uma vaga ao Senado. Essa interpretação, ainda sem manifestação pública da própria Lívia sobre esses episódios específicos, ajuda a contextualizar a aliança estadual, mas não elimina os questionamentos sobre como ela concilia essa relação política com o apoio declarado a Lula, especialmente depois que Daniel anunciou apoio a Flávio Bolsonaro.
Arnaldo Jordy também está sob pressão por sua atuação
Outro personagem desse cenário é Arnaldo Jordy, liderança do Cidadania no Pará. Embora tenha dividido o campo de alianças estaduais com Daniel, Jordy declarou apoio a Lula e afirmou publicamente que manteria a posição no segundo turno.
Em entrevista ao Estado do Pará Online, após o anúncio de Daniel, Jordy lembrou que o Cidadania havia organizado comitês de apoio à combinação política de Lula para a Presidência e Daniel para o governo estadual. Segundo ele, a mobilização envolveu lideranças de diferentes partidos e chegou a 46 municípios paraenses.
A manifestação estabeleceu uma distinção entre a escolha presidencial de Jordy e a de Daniel. O dirigente afirmou que a posição do Cidadania permanecia inalterada e que a campanha por Lula seria intensificada. O EPOL detalhou a divergência entre Daniel e Jordy na matéria sobre o apoio do governador eleito a Flávio Bolsonaro e a posição do Cidadania.
Entretanto, o comportamento nas redes sociais também se tornou um elemento de observação. Conforme o levantamento apresentado para esta análise, a última publicação de Jordy em apoio a Lula foi feita em 4 de outubro. Desde então, não houve novas manifestações desse tipo em seus perfis, até o momento considerado pela reportagem.
A ausência de novas publicações, isoladamente, não comprova abandono da campanha. O apoio político também pode se manifestar por meio de articulações internas, reuniões e mobilizações presenciais. Ainda assim, diante da declaração de que o trabalho por Lula seria intensificado, a falta de novas manifestações públicas levanta dúvidas sobre o ritmo dessa atuação e sobre a capacidade de converter o apoio formal em mobilização visível.
O caso também revela uma dificuldade recorrente nas alianças eleitorais: lideranças podem concordar sobre um projeto regional sem compartilhar o mesmo posicionamento nacional. Quando essa diferença se torna explícita, cabe aos partidos demonstrar se conseguem manter uma atuação coordenada ou se o apoio fica restrito ao discurso.
Disputa no PT de Ananindeua expõe divisão entre apoio a Lula e relação com Daniel
Se, no caso de Lívia e Jordy, a contradição aparece na relação entre alianças estaduais e escolhas presidenciais, dentro do PT de Ananindeua o conflito também envolve a disputa pelo comando partidário e a relação com o governo municipal.
A vitória de Miro Sanova na disputa interna consolidou uma orientação de apoio à candidatura de Hana Ghassan e de oposição ao então prefeito Daniel Santos. O resultado fortaleceu o grupo que defendia uma postura crítica à gestão municipal e aumentou a pressão para que o partido se afastasse politicamente da administração, principalmente da figura que viria a se tornar governador do estado.
O conflito tem um componente prático: setores derrotados na disputa interna continuam ligados ao governo municipal. Entre eles está Pedro Soares, dirigente petista que ocupa a Secretaria Municipal de Agricultura. A permanência de integrantes do partido na gestão de Daniel cria uma tensão entre a orientação da direção partidária e os interesses de quem mantém espaço na administração.
O cenário se torna ainda mais delicado porque Daniel, além de ter sido eleito governador, declarou apoio a Flávio Bolsonaro. Para o grupo que defende o afastamento do PT da gestão municipal, manter integrantes do partido no governo significa conviver com uma administração cujo principal líder escolheu um adversário nacional de Lula.
A divergência não surgiu apenas com a definição da eleição presidencial. Pedro Soares disputou o comando municipal do PT com o grupo de Miro e saiu derrotado. Conforme o contexto apresentado à reportagem, ele defendia uma aproximação com Daniel, mas não conseguiu consolidar essa orientação na direção partidária.
A vitória de Miro, portanto, não representa somente uma troca de comando. Ela também redefine o espaço político do PT diante da prefeitura e aumenta a pressão sobre dirigentes que participam do governo municipal. O partido terá de lidar com a contradição entre uma direção que pretende fazer oposição a Daniel e integrantes que continuam ocupando cargos na administração.
Ausências em mobilizações levantam dúvidas sobre a unidade da militância
As divergências internas também aparecem nas atividades de mobilização. Nesta terça-feira (13), houve uma mobilização organizada por Miro Sanova para um adesivaço em apoio à candidatura de Lula. Segundo as informações repassadas à reportagem, integrantes ligados ao grupo de Pedro Soares não participaram da atividade.
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A ausência também foi percebida em um ato convocado por apoiadores de Lula em frente ao campus da Universidade Federal do Pará (UFPA) em Ananindeua. De acordo com o relato apresentado à reportagem, membros ligados ao grupo de Pedro não estiveram presentes na manifestação.
As ausências não permitem concluir, por si só, que esses dirigentes tenham rompido com Lula ou decidido apoiar Flávio Bolsonaro. Para estabelecer essa conclusão, seria necessário conhecer o posicionamento público dos envolvidos e ouvir suas justificativas. No entanto, a falta de participação em atos locais de mobilização reforça a percepção de que o apoio ao presidente não está sendo conduzido de maneira uniforme entre os grupos petistas do município.
A situação expõe um problema político para o PT: a defesa da candidatura presidencial exige mais do que declarações individuais. Em um município onde parte da militância está envolvida em disputas internas e outra parcela mantém vínculos com a gestão de um governador eleito alinhado a Flávio Bolsonaro, a unidade do partido depende da capacidade de superar os conflitos locais.
Também há uma diferença importante entre a direção formal de uma legenda e a atuação de seus integrantes. Mesmo quando o partido define uma posição, dirigentes podem manter relações políticas próprias, priorizar alianças municipais ou simplesmente não participar de determinadas atividades. O desafio da direção é transformar a decisão partidária em ação coletiva.
O apoio a Lula no Pará depende de mais do que declarações
Os casos de Lívia Noronha, Arnaldo Jordy e da disputa interna do PT de Ananindeua mostram que a corrida presidencial atravessa alianças estaduais e conflitos municipais. O apoio a Lula reúne atores com trajetórias, interesses e graus de compromisso distintos, enquanto a aproximação de Daniel Santos com Flávio Bolsonaro obriga aliados locais a explicitar suas próprias escolhas.
No caso de Lívia, o questionamento está na distância entre sua trajetória na esquerda e a aliança eleitoral que a aproximou de Daniel. Para Jordy, a questão é a capacidade de transformar uma posição pública declarada em mobilização continuada. Em Ananindeua, o conflito envolve diretamente a disputa pelo comando partidário e a permanência de dirigentes petistas no governo municipal.
Não se trata de afirmar que todos esses casos têm o mesmo peso ou que as ausências em atos comprovam mudança de voto. O ponto em comum é a dificuldade de construir uma frente política coesa quando os interesses regionais, as relações com governos locais e as escolhas nacionais apontam em direções diferentes.
Com o segundo turno em andamento, a principal questão para o campo lulista no Pará é saber até que ponto os apoios declarados se converterão em trabalho de campanha, presença nas ruas e mobilização de eleitores. Em um cenário de alianças contraditórias e disputas internas, a distância entre discurso e atuação pode ser tão relevante quanto as declarações públicas de apoio.
Fonte: Estado do Pará Online, por Mayra Peniche. Publicação original: 13/10/2026 às 19:06.
Foto: Imagem da publicação de Estado do Pará Online (autoria não identificada automaticamente).