“Eu fui o criador das Filhas da Chiquita”, garantiu o sociólogo Antônio Bandeira
· Oswaldo Coimbra / Ver-o-Fato
Ganhou alcance nacional há poucos dias o conhecimento levado aos brasileiros acerca da Festa da Chiquita, evento dos festejos do Círio de Nossa Senhora de Nazaré, bastante conhecido pelos paraenses.
Pois, há 50 anos, ele ocorre, perto do Bar do Parque, na Praça da República, após a passagem da imagem da santa por aquele local, na Procissão da Transladação, que antecede o Círio.
A novidade neste ano foi a veiculação de uma matéria sobre o cinquentenário da festa numa mídia com muitos leitores em outros Estados brasileiros, e, não apenas no Pará, a Folha de São Paulo.
Assinada pelos repórteres Anna Virginia Balloussier e João Pimentel, a matéria, já em seu título, revelou a característica mais relevante do evento:
“Festa da Chiquita, LGBTQIA+, mescla profano e sagrado no Círio de Nazaré”,
Por ter esta característica marcante, a Festa da Chiquita, naprojeção, além das fronteiras do Pará, que recebeu, através da matéria, foi apresentada pelos dois repórteres, como uma celebração não inserida na programação oficial do Círio de Nazaré.
Por ser rejeitada tanto pela Igreja Católica, como pelos organizadores daquela programação.
Conquanto, ela tenha entrado como um “bem cultural” no dossiê elaborado pelo IPHAN sobre o Círio de Nazaré, de Belém.
O qual impulsionou o processo de reconhecimento do Círio, por parte da UNESCO, como um Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, em 2013.
No dossiê do IPHAN, a festa foi inserida entre os diversos eventos incorporados aos festejos do Círio.
Entre os quais, destacaram os dois jornalistas da Folha de São Paulo:
“Outras tradições da época, no calendário paraense, como o farto almoço de família com pratos típicos, da maniçoba ao arroz paraense, e os brinquedos feitos com miriti, uma palmeira nativa da Amazônia que molda de barquinhos a passarinhos”.
Os dois repórteres definiram a festa como um eventopromovida bem no meio do circuito religioso do Círio, que veio a se constituir como “sobretudo, um espaço de exaltação e resistência da comunidade LGBTQIA+”.
Eles acrescentaram:
“Lembra uma versão pocket da Parada LGBTQIA+ cercada dos símbolos da maior festa católica da América Latina. Há leques, drags, militância e o Troféu Veado de Ouro”.
Tem também concurso de drag queens, que opõe concorrentes como Desiree e Afrodite, ambas de peruca loira e roupas de vinil vermelho.
A votação é na base da bateção de leque: quem empolgar mais a plateia leva.
Adiante, os repórteres reafirmaram o que tinham adiantado no título da matéria, escrevendo que, para as participantes da festa, ela representa aquela confluência entre o profano e o sagrado.
Uma drag, identificada como Glenda Aquilla, de 44 anos, disse para eles, sobre a devoção dela à Virgem de Nazaré:
“Essa mulher é a coisa mais importante da minha vida, uma santa milagrosa já me ajudou muito. A gente tem um respeito absurdo por ela. É a mãe de Jesus, e o nosso Deus é tão maravilhoso que não julga ninguém. As pessoas deveriam ter consciência de que o respeito é a melhor coisa do mundo.”
Outra participante da festa, uma estudante de Psicologia, de 22 anos, confidenciou aos dois repórteres que pediu à santa que sua família a aceitasse como ela é.
Isto, depois de ter atravessado anos turbulentos em casa, desde quando se revelou lésbica.
Ela acrescentou, bem-humorada:
“Hoje minha mãe gosta mais da minha namorada do que de mim, se bobear. Não tem como ficar em falta com Nazaré”.
A palavra do IPHAN
No dossiê que elaborou, em 2006, tendo em vista o reconhecimento do Cirio como um bem cultural da humanidade, o IPHAN reconheceu que a Festa da Chiquita é repudiada pela Diretoria dos festejos nazarenos e pelas autoridades eclesiásticas.
A história da festa, àquela altura, tinha pouco mais de 20 anos.
E o IPHAN identificou os anos que seriam os seus marcos temporais, chmando-a de “polêmica festa”,:
– “Nos carnavais de 1975 e 1976, grupos homossexuais e simpatizantes de Belém organizaram um bloco carnavalesco que saía das proximidades do extinto presídio São José, percorrendo as ruas do centro da cidade, até o Bar do Parque. Foi a origem da polêmica festa das filhas da Chiquita”.
– “Em 1977, aconteceu a festa de Santo Antônio Casamenteiro, com a entrega, pela primeira vez, dos prêmios Veado de ouro e Rainha do Círio”.
– “No mesmo ano, realizou-se a ‘transveadação’, referência à Transladação, do Veado de Ouro, do bairro da Cidade Velha,até o Bar do Parque”.
– “Em 1978, realizou-se a primeira festa das filhas da Chiquita, no sábado da Transladação, com a estrutura que conhecemos hoje, ou seja, carimbó tocado pelo grupo Borboletas do Mar, entrega dos prêmios Veado de Ouro e Rainha do Círio, cujos ganhadores são escolhidos,independentemente, de suas opções sexuais, e, venda de cerveja”.
– “A partir de 1979, artistas locais começaram a participar do evento”.
– “Em 1997, introduziu-se o prêmio Botina de Ouro, destinado a uma homossexual”.
– “Em 1999, a festa comemorou sua maioridade, 21 anos,com a realização da ‘fresquena’, ‘novena de fresco’, com uma pequena celebração realizada pelos próprios participantes do evento”.
Por fim, no dossiê, o IPHAN emitiu seu próprio parecer:
“As diversas referências ao Círio e à própria Nossa Senhora de Nazaré na festa das filhas da Chiquita apresentam, assim, um caráter de resistência, de contestação, de busca de espaço e reconhecimento social pelos homossexuais. Dela participam grupos homossexuais e simpatizantes da sociedade de Belém”.
Uma versão mais detalhada da História da Festa da Chiquita apareceu numa carta enviada, no início dos anos 2.000, para o Grupo de Memória dos Construtores da Amazônia, da UFPa, por Antônio Luiz Bandeira, um sociólogo carioca, residente em Belém, havia muitos anos.
Na qual, ele se declarou o criador daquela festa.
Por dois motivos, ele deu aquele destino à sua carta.
O primeiro, naquela fase, o núcleo de memória dispunha de espaço num jornal de Belém, e, poderia, por esta razão,publicar a carta, o que, de fato, ocorreu.
O segundo, o núcleo de memória tinha elaborado e divulgado um artigo, mostrando as longas raízes históricas da junção da fé com elementos eróticos, como a que ocorria na Festa da Chiquita, em obras do passado.
Algum tempo depois, o sociólogo faleceu.
Agora, a carta dele ganha maior importância e sua publicação (sua republicação) adquire mais sentido.
A seguir o que Bandeira escreveu.
A carta Antônio Luiz Bandeira
“Apesar de afastado, há alguns anos, da liderança e condução do Arraial das Filhas da Chiquita, conduzido, no presente,pelo cantor-performático Elóy Iglésias, fui o criador dessa irreverente brincadeira profana, realizada todos os anos, após a Transladação, no sábado, véspera do Círio de Nazaré.
A brincadeira foi realizada, pela primeira vez, no ano de 1979, época em que uma efervescente geração de artistas e intelectuais varava noites no Bar do Parque, numa convivência fraterna e extremamente rica para a cultura papa-chibé.
A intenção original era recuperar o espírito do velho arraial profano de Nazaré, com suas festas, shows, teatro, e, outras atrações, que sempre acompanharam, paralelamente, essa grandiosa manifestação de fé paraense.
Abro um parêntesis para esclarecer que tudo teve origem na criação, em 1977, da ACRCFCB – Associação Carnavalesca Recreativa e Cultural Filhas da Chiquita Bacana, da qual sou presidente vitalício, como um alegre bloco de carnaval, inspirado na marchinha gravada, naquela época, por Caetano Veloso.
No bloco, a maioria dos integrantes, do sexo masculino,fantasiava-se em trajes femininos.
O bloco bombou nos carnavais de rua que se seguiram.
Pois bem, dentro do espírito de reviver o espírito do velho Arraial de Nazaré, fui pessoalmente buscar o conjunto de carimbó ‘Os Borboletas do Mar’, na cidade de Marapanim.
E, a exemplo das festas do largo, fizemos correr, por diversas noites, entre os frequentadores do Bar do Parque, o ‘Livro de Ouro’, para a coleta de contribuições financeiras, destinadas ao custeio da festa.
Enfeitamos o Bar do Parque com bandeirinhas coloridas e troncos de açaizeiros.
A festa foi realizada, ao lado do Bar do Parque, cujo piso era de terra batida.
O dançará de carimbó só era interrompido para que uma comissão da ‘Diretoria da Festa’ espargisse água de uma bacia para baixar a poeira.
Naquele ano de 1979, nos encontrávamos em plena Ditadura Militar, que desencadeara uma violenta repressão aos movimentos populares, com a prisão de dois padres franceses, com atuação na região do Araguaia.
Por isto, os movimentos populares, de então, anunciaram que,durante aquele Círio, iriam exibir faixas de protesto.
À época, um jornalista paraense radicado em Brasília, muito conservador, chamado Oliveira Bastos, escreveu um artigo publicado no extinto jornal ‘A Província do Pará’, no qual apelava à população para que não permitisse a ‘contaminação política’ da procissão do Círio de Nazaré.
Em sua argumentação, o jornalista fez um paralelo entre o episódio do milagre, ocorrido em Portugal, quando o nobre Dom Fuas Roupinho, perseguiu, em seu cavalo, um veado, que, na verdade, era o demônio travestido.
O nobre apelou à Nossa Senhora de Nazaré, e, conseguiu brecar sua montaria, antes que ela se precipitasse no despenhadeiro, onde o veado havia mergulhado.
Oliveira Bastos terminava sua catilinária assim:
‘Se um veado foi o responsável pelo milagre, veados do Pará!Não deixeis que o Círio seja contaminado pela política!’.
Ficamos indignados com o paralelismo e decidimos na hora criar o ‘Troféu Veado de Ouro’, que se chamou,originalmente, ‘Troféu Oliveira Bastos’.
Era uma estatueta de cerâmica, pintada de spray dourado, colada a uma base de madeira.
Seria entregue, durante o ‘Arraial das Filhas da Chiquita’, à figura mais espirituosa da noite, escolhida pela Diretoria da Festa.
Não havia palco suspenso, fumaça de gelo seco, spots de luz colorida, desfile de ‘Drag Queens’, como nos dias atuais.
Tudo muito simples, apenas quatro caixas de som, e, um microfone faziam a festa, com muitos recadinhos do tipo ‘correio sentimental’, nos intervalos da música.
Lembro bem que, uma vez, o deputado Nilson Pinto de Oliveira, à época reitor da UFPA, levou um grupo de professores alemães que visitavam a universidade, para participarem da festa.
Os referidos professores perguntaram-me a que horas seria o ‘concurso’.
Expliquei-lhes que não se tratava de um ‘concurso’ para escolher o veado que mais se parecesse com mulher, mas sim aquele que tivesse a ‘cabeça mais torta’, no pedaço.
Não havia arrastões, brigas e desentendimentos, tudo correndo na maior paz e harmonia, encerrando-se a festa, às quatro horas da manhã, quando, tradicionalmente, o Bar do Parque é fechado uma única vez, no ano.
E, embriagados de cerveja, alegria e emoção, nos dirigíamos até o Largo da Sé, para acompanharmos a Santinha, em sua saída, na realização do nosso sempre aguardado e bissecular Círio de Nossa Senhora de Nazaré.
Luiz Antônio Bandeira – Presidente Vitalício da ACRCFCB.
(Ilustração: poster do cinquentenário da Festa da Chiquita)
“I was the creator of the *Filhas da Chiquita*,”
asserted sociologist Antônio Bandeira.
News about the *Festa da Chiquita*—an event within the*Círio de Nossa Senhora de Nazaré* festivities that is well-known to the people of Pará—recently gained nationalattention among Brazilians.
The event has taken place for 50 years near the *Bar do Parque* in *Praça da República*, occurring after the imageof the saint passes that location during the *Transladação* procession, which precedes the main *Círio* procession.
What was new this year was the publication of a story aboutthe festival’s 50th anniversary in *Folha de São Paulo*—a media outlet with a large readership in other Brazilian states, not just in Pará.
Authored by reporters Anna Virginia Balloussier and João Pimentel, the article revealed the event’s most significantcharacteristic right in its headline:
“*Festa da Chiquita*, LGBTQIA+, blends the profane andthe sacred at the *Círio de Nazaré*.”
Due to this distinctive feature—and the exposure it receivedbeyond Pará’s borders through the article—the two reporterspresented the *Festa da Chiquita* as a celebration that is notpart of the official *Círio de Nazaré* program.
This is because it is rejected by both the Catholic Church andthe organizers of that official schedule.
Nevertheless, it was included as a “cultural asset” in thedossier prepared by IPHAN regarding the *Círio de Nazaré* in Belém.
That dossier drove the process that led UNESCO to recognizethe *Círio* as Intangible Cultural Heritage of Humanity in 2013.
In the IPHAN dossier, the festival was listed among thevarious events incorporated into the *Círio* festivities. Among these, two journalists from *Folha de S.Paulo* highlighted:
“Other traditions of the season in the Pará calendar—such as the lavish family lunch featuring local dishes ranging from*maniçoba* to *arroz paraense*, and toys crafted from*miriti* (a native Amazonian palm used to shape everythingfrom little boats to birds).”
The two reporters described the celebration as an event takingplace right in the midst of the Círio religious circuit—one thathas come to stand as “above all, a space for the LGBTQIA+ community to celebrate itself and assert its resistance.”
They added:
“It resembles a ‘pocket version’ of the LGBTQIA+ Pride Parade, surrounded by the symbols of Latin America’s largestCatholic festival. There are hand fans, drag queens, activism, and the ‘Golden Deer’ Trophy (*Troféu Veado de Ouro*).”
There is also a drag queen contest, pitting competitors like Desiree and Afrodite against each other—both sportingblonde wigs and red vinyl outfits.
Voting is determined by fan-waving prowess: whoever getsthe crowd most excited wins.
Further on, the reporters reiterated what they had stated in thearticle’s headline, writing that for the participants, the partyrepresents a convergence of the profane and the sacred.
One drag queen, identified as 44-year-old Glenda Aquilla, spoke to them about her devotion to the Virgin of Nazareth:
“That woman is the most important thing in my life; she is a miraculous saint who has helped me a great deal. We haveimmense respect for her. She is the mother of Jesus, and ourGod is so wonderful that He doesn’t judge anyone. People should realize that respect is the best thing in the world.”
Another participant, a 22-year-old psychology student, confided in the reporters that she had asked the saint to help her family accept her just as she is. This comes after goingthrough turbulent years at home ever since she came out as a lesbian.
She added, with a touch of humor:
“These days, my mom likes my girlfriend more than she likes me—maybe even more. You can’t go wrong with Nazaré.”
IPHAN’s Perspective
In the dossier it prepared in 2006—aiming for the recognitionof the Círio as a piece of humanity’s cultural heritage—IPHAN acknowledged that the *Festa da Chiquita* isrepudiated by the board organizing the Nazarene festivitiesand by ecclesiastical authorities.
At that time, the festival’s history spanned just over 20 years.
IPHAN identified the key milestones of what it termed a “controversial festival”:
– “During the 1975 and 1976 Carnival seasons, homosexualgroups and allies from Belém organized a carnival troupe thatset out from the vicinity of the now-defunct São José prison, making its way through the city center streets to the Bar do Parque. This marked the origin of the controversial *Festa das Filhas da Chiquita*.”
– “In 1977, the *Santo Antônio Casamenteiro* (Saint Anthony the Matchmaker) party took place, featuring thefirst-ever presentation of the ‘Golden Deer’ (*Veado de Ouro*) and ‘Queen of the Círio’ (*Rainha do Círio*) awards.”
– “That same year, the ‘Transveadação’—a play on the word *Transladação* (the Círio’s secondary procession)—tookplace, involving a procession of the ‘Golden Deer’ from theCidade Velha neighborhood to the Bar do Parque.”
– “In 1978, the first *Festa das Filhas da Chiquita* was heldon the Saturday of the *Transladação*, featuring the formatwe recognize today: *carimbó* music performed by thegroup Borboletas do Mar; the presentation of the ‘Golden Deer’ and ‘Queen of the Círio’ awards (with winners chosenregardless of sexual orientation); and beer sales.”
– “Starting in 1979, local artists began participating in theevent.” – “In 1997, the ‘Golden Boot’ (*Botina de Ouro*) award was introduced, intended for a homosexualindividual.”
– “In 1999, the festival celebrated its coming of age—turning21—with the ‘fresquena’ (a play on *novena* and *fresco*—a slang term for a flamboyant gay man), a small celebrationorganized by the event participants themselves.”
Finally, in the dossier, IPHAN issued its own assessment:
“The various references to the Círio and to Our Lady ofNazareth herself within the *Festa das Filhas da Chiquita* thus demonstrate a character of resistance, contestation, and a quest for social space and recognition on the part ofhomosexuals. Homosexual groups and allies from Belém society participate in the event.”
A more detailed version of the history of the *Festa da Chiquita* appeared in a letter sent in the early 2000s to the*Grupo de Memória dos Construtores da Amazônia* (Builders of the Amazon Memory Group) at UFPa byAntônio Luiz Bandeira, a sociologist from Rio de Janeiro who had been living in Belém for many years.
In the letter, he claimed to be the creator of the festival.
He sent the letter there for two reasons.
First, at that time, the memory group had a dedicated space in a Belém newspaper and could therefore publish the letter—which, in fact, happened.
Second, the memory group had produced and published anarticle demonstrating the long historical roots—found in pastworks—of the blending of faith with erotic elements, such as what occurred at the *Festa da Chiquita*.
Some time later, the sociologist passed away.
Now, his letter takes on greater importance, and its publication (or republication) makes even more sense.
Below is what Bandeira wrote:
The Letter from Antônio Luiz Bandeira
“Although I stepped away some years ago from leading andmanaging the *Arraial das Filhas da Chiquita*—currently led by the singer-performer Elóy Iglésias—I was the creator ofthis irreverent, secular revelry. It takes place every yearfollowing the *Transladação* procession on the Saturdaybefore the *Círio de Nazaré*.
The event was held for the first time in 1979, a time when a vibrant generation of artists and intellectuals would spendlong nights at the *Bar do Parque*, sharing a camaraderiethat was incredibly enriching for local *papa-chibé* culture.
The original intention was to revive the spirit of the oldsecular *Arraial de Nazaré*—with its parties, shows, theater, and other attractions—that had always run parallel to thismagnificent expression of *Paraense* faith.
I should pause here to clarify that it all began in 1977 with thecreation of the ACRCFCB—the *Associação Carnavalesca Recreativa e Cultural Filhas da Chiquita Bacana* (Filhas da Chiquita Bacana Recreational and Cultural CarnivalAssociation), of which I am the lifetime president. It startedas a joyful carnival *bloc* (street troupe), inspired by the*marchinha* song recorded at the time by Caetano Veloso.
In this *bloc*, the majority of the male members dressed in women’s costumes.
The *bloc* became a huge hit during the street carnivals thatfollowed.
So, in the spirit of reviving the old *Arraial de Nazaré*, I personally went to the city of Marapanim to bring back the*carimbó* band ‘Os Borboletas do Mar.’
And, just like at the traditional public square festivals, wecirculated a ‘Golden Book’ among the *Bar do Parque* patrons over several nights to collect financial contributionsto cover the costs of the party.
We decorated the Bar do Parque with colorful bunting andaçaí palm trunks.
The celebration took place next to the *Bar do Parque*, which had a packed-earth floor.
The *carimbó* dancing would only pause when a committeefrom the “Festival Organizing Board” sprinkled water from a basin to settle the dust.
That year—1979—we were in the midst of the militarydictatorship, which had unleashed a violent crackdown ongrassroots movements, including the arrest of two Frenchpriests active in the Araguaia region.
Consequently, grassroots movements of the time announcedthat they would display protest banners during that year’s*Círio* procession.
At the time, a highly conservative journalist from Pará basedin Brasília, Oliveira Bastos, wrote an article published in thenow-defunct newspaper *A Província do Pará*. In it, heurged the public not to allow the “political contamination” ofthe *Círio de Nazaré* procession.
In his argument, the journalist drew a parallel with a miraclethat occurred in Portugal, involving the nobleman Dom FuasRoupinho. While on horseback, the nobleman had pursued a stag that was, in reality, the devil in disguise.
The nobleman called upon Our Lady of Nazareth andmanaged to halt his mount just before it plunged over theprecipice where the stag had vanished.
Oliveira Bastos concluded his diatribe as follows:
“If a stag was responsible for the miracle—oh, stags of Pará!—do not let the *Círio* be contaminated by politics!”
We were outraged by this comparison and decided on the spot to create the “Golden Stag Trophy”—originally named the”Oliveira Bastos Trophy.”
It was a statuette made of ceramic, spray-painted gold, andglued to a wooden base.
It would be presented, during the ‘Arraial das Filhas da Chiquita,’ to the wittiest figure of the night, chosen by theFestival’s organizing committee.
There were no raised stages, dry-ice fog, colored spotlights, or ‘Drag Queen’ parades like there are today.
Everything was very simple; just four speakers and a microphone powered the party, accompanied by plenty of‘sentimental mail’ style shout-outs during the musical breaks.
I well remember the time Congressman Nilson Pinto de Oliveira—who was the rector of UFPA at the time—brought a group of visiting German professors to the party.
Those professors asked me what time the ‘contest’ would take place.
I explained to them that it wasn’t a ‘contest’ to pick the gay man who looked most like a woman, but rather the one withthe ‘quirkiest personality’ in the crowd.
There were no mob-style robberies, fights, or altercations; everything proceeded in total peace and harmony, with theparty wrapping up at four in the morning—the one time ofyear when the Bar do Parque traditionally closes.
And, intoxicated by beer, joy, and emotion, we would head toLargo da Sé to accompany the *Santinha* (the small statue ofthe Virgin) as she set out for our long-awaited, two-century-old Círio de Nossa Senhora de Nazaré procession.
Luiz Antônio Bandeira – Lifetime President of ACRCFCB.
(Illustration: poster for the 50th anniversary of the Festa da Chiquita)
Fonte: Ver-o-Fato, por Oswaldo Coimbra. Publicação original: 13/10/2026 às 13:20.
Foto: Imagem da publicação de Ver-o-Fato (autoria não identificada automaticamente).