Federais investigam saque de falecida que expôs esquema de fraude bancária no Pará
· Val-André Mutran / Ver-o-Fato
Operação Clones II está nas ruas para desbaratar envolvidos em crimes de fraude bancária e lavagem de R$ 3 milhões no Pará
Brasília – A Polícia Federal deflagrou nesta quinta-feira (15/10) a Operação Clones II, que apura um suposto esquema de fraudes bancárias, falsificação de documentos, obtenção indevida de créditos e lavagem de dinheiro em Belém e Ananindeua. O esquema teria movimentado cerca de R$ 3 milhões.
Segundo a PF, a Justiça Federal autorizou medidas cautelares contra cinco investigados, entre elas mandados de busca e apreensão, acesso a dispositivos eletrônicos, sequestro de bens e afastamento cautelar de função pública. Entre os alvos está um servidor público federal e pessoas a ele vinculadas.
Como o esquema teria começado
A investigação teve origem em um caso específico e eloquente: o saque indevido de valores de uma correntista falecida, realizado mediante o uso de documentação falsa. Foi a partir dessa ocorrência que a PF identificou indícios de operação mais ampla.
No decorrer da apuração, os investigadores encontraram sinais de obtenção irregular de créditos e de movimentação de recursos em benefício dos investigados. A PF também apura a eventual utilização de informações bancárias privilegiadas para viabilizar as operações, o que sugere aproveitamento de acesso interno a dados de correntistas.
A suspeita de lavagem de dinheiro se apoia em possíveis práticas de ocultação e dissimulação patrimonial, inclusive por meio de terceiros e da aquisição de bens supostamente incompatíveis com a renda formal dos investigados. Se confirmadas, as condutas configurariam, conforme a PF, os crimes de estelionato, falsificação de documento público, organização criminosa e lavagem de dinheiro.
Fraudes financeiras em foco no Brasil
A operação ocorre em um momento de intensificação do combate a fraudes financeiras no país. Em agosto de 2026, a própria PF deflagrou a Operação Klonen, que apurou fraude bancária eletrônica com prejuízo estimado em cerca de € 30 milhões a uma instituição financeira alemã, segundo comunicado oficial do órgão.
O trabalho da corporação nessa área se apoia, em parte, no Projeto Tentáculos, fruto de acordos de cooperação técnica entre a Polícia Federal, a Federação Brasileira de Bancos e instituições financeiras e de pagamento. Essa estrutura reflete um entendimento de que fraudes bancárias deixaram de ser vista como criminalidade de menor potencial.
No Pará, o fenômeno não é isolado. Em maio de 2026, a PF executou a Operação Persona Nula, na Grande Belém, contra fraudes em benefícios do INSS concedidos com documentos falsos — ao menos 22 benefícios irregulares haviam sido identificados, segundo reportagem do g1. O padrão repetido, uso de documentação falsa para acesso a recursos públicos ou privados, sugere que o Estado do Pará é palco recorrente desse tipo de esquema.
Os pontos centrais da apuração
A Operação Clones II concentra três eixos investigativos que merecem destaque.
O primeiro é a participação de um servidor público federal. A hipótese de que agente do Estado esteja envolvido — possivelmente por meio do uso de informações bancárias privilegiadas — transforma o caso em questão de integridade no serviço público, e não apenas de crime contra instituição financeira.
O segundo é o uso de dados privilegiados. Se confirmado, o esquema indicaria que a fraude não dependeu apenas de documentação falsificada, mas de acesso interno a informações de correntistas, o que amplia a responsabilidade penal e expõe fragilidades de governança de dados no setor.
O terceiro é a lavagem de dinheiro, apurada por meio de ocultação patrimonial com terceiros e aquisição de bens incompatíveis com a renda formal. Esse eixo é o que permite estender a persecução penal além do golpe original, alcançando quem teria ajudado a dissimular os recursos.
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O caso tende a reforçar a percepção de vulnerabilidade dos clientes de bancos, sobretudo de pessoas idosas ou falecidas, cujos dados podem ser explorados sem o conhecimento dos familiares. A vítima inicial do esquema era uma correntista falecida, perfil historicamente mais exposto a esse tipo de fraude.
Para o setor financeiro, a investigação cobra atenção sobre controles internos e acesso de agentes a informações sensíveis. Para o Estado, a existência de um servidor público entre os investigados coloca a questão da integridade administrativa em xeque, ainda que se trate de hipótese em fase de apuração.
É importante sublinhar que os cinco investigados ainda não foram condenados. As medidas cautelares são instrumentos de investigação, e a responsabilização dependerá de denúncia do Ministério Público Federal e de julgamento pelo Poder Judiciário. A PF informou que busca esclarecer a extensão das possíveis fraudes e a participação de cada envolvido — o que indica que o número de investigados e o montante apurado podem mudar conforme a apuração avance.
A Operação Clones II mostra um padrão que se consolida na atuação da Polícia Federal: partiu de um caso pontual, o saque indevido de valores de correntista falecida, e alcançou um esquema maior, com movimentação estimada em R$ 3 milhões, envolvimento de servidor público federal e suspeita de lavagem por ocultação patrimonial.
O desdobramento tende a girar em torno de três perguntas: se o servidor público tinha acesso a informações bancárias privilegiadas, se houve conivência de terceiros na dissimulação dos recursos e se outros casos semelhantes podem ser reconduzidos a partir dos mesmos dados. O caso reforça a necessidade de controles rígidos no setor financeiro e de monitoramento sobre a integridade de agentes públicos que acessam dados sensíveis de correntistas.
Val-André Mutran é repórter especial do Portal Ver-o-Fato e está sediado em Brasília.
Fonte: Ver-o-Fato, por Val-André Mutran. Publicação original: 15/10/2026 às 13:27.
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