Richard Rasmussen no conselho ambiental do Pará: por que o apresentador é alvo de críticas de biólogos?
· Mayra Peniche / Estado do Pará Online
O anúncio de que Richard Rasmussen integrará o Conselho Consultivo Estratégico da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semas) do Pará coloca no centro do debate um dos nomes mais conhecidos e controversos da divulgação da vida selvagem no Brasil. O convite foi confirmado pelo futuro secretário da pasta, Vinícius Borba, que pretende reunir especialistas e personalidades de projeção nacional para discutir políticas ambientais no estado.
Conhecido por apresentar programas sobre animais e biodiversidade na televisão, Rasmussen também acumula controvérsias que há anos alimentam críticas de profissionais e estudantes de Biologia. As principais discussões envolvem a forma como ele interage com animais silvestres, questionamentos sobre sua conduta em gravações e registros de autuações ambientais.
A presença do apresentador no grupo consultivo da Semas ganha relevância em um estado que abriga parte expressiva da Amazônia e enfrenta desafios relacionados ao desmatamento, à conservação da biodiversidade e à conciliação entre atividades econômicas e proteção ambiental.
Multas do Ibama e questionamentos sobre a atuação com animais
Uma das principais razões para as críticas é o histórico de autuações do apresentador pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Em reportagem publicada em 2019, o jornal Folha de S.Paulo informou que Rasmussen havia recebido oito autuações relacionadas à fauna, aplicadas entre 2002 e 2009, que somavam R$ 263,1 mil à época.
Entre as infrações citadas estavam irregularidades relacionadas à manutenção de animais silvestres em cativeiro e à destinação de espécimes sem autorização. Na ocasião, o apresentador foi procurado pela reportagem, mas não respondeu até a publicação do texto.
O histórico alimentou questionamentos sobre a diferença entre a imagem de defensor da natureza construída na televisão e as condutas apontadas pelos órgãos ambientais. Para críticos, a exposição de animais a situações de estresse durante gravações e as intervenções na fauna levantam dúvidas sobre os limites éticos da produção de conteúdo sobre vida selvagem.
Polêmica envolvendo a morte de um boto-cor-de-rosa
Outro episódio que marcou a trajetória de Rasmussen ocorreu em 2014, quando imagens de uma fêmea de boto-cor-de-rosa morta por pescadores foram exibidas pelo Fantástico, da TV Globo. O material mostrava o uso da carne do animal como isca para a pesca da piracatinga, prática que ameaça a população de botos na Amazônia.
Anos depois, o documentário A River Below, do cineasta norte-americano Mark Grieco, trouxe acusações de que pescadores teriam recebido dinheiro para matar o animal durante a gravação. A suspeita levantou questionamentos sobre a produção das imagens e a possibilidade de a morte ter sido provocada para gerar uma denúncia ambiental de grande repercussão.
Rasmussen negou ter pago aos pescadores para matar o boto. Em entrevista publicada pelo portal Notícias da TV, em 2017, afirmou que sua intenção era chamar a atenção do público para a matança dos animais, que já era alvo de denúncias de ambientalistas.
A controvérsia dividiu opiniões sobre os métodos utilizados para denunciar crimes contra a fauna. De um lado, o material expôs uma prática prejudicial à biodiversidade amazônica. De outro, as acusações sobre as circunstâncias da gravação alimentaram críticas à conduta do apresentador.
Por que parte dos biólogos critica Richard Rasmussen?
As críticas ao apresentador não se resumem a um episódio específico. Discussões em comunidades de estudantes e profissionais de Biologia apontam questionamentos sobre o manejo de animais, a exposição da fauna silvestre e a responsabilidade de quem produz conteúdo de divulgação científica para grandes audiências.
A repercussão também envolve a preocupação de que programas de entretenimento naturalizem interações inadequadas com animais ou transmitam uma visão simplificada de questões ambientais complexas. Para esses críticos, popularidade e capacidade de comunicação não substituem o rigor científico e o cumprimento das normas de proteção à fauna.
Isso não significa, porém, que todos os biólogos rejeitem Rasmussen ou que exista uma posição unânime da categoria contra ele. Em 2021, por exemplo, o Conselho Regional de Biologia da 1ª Região (CRBio-01) arquivou uma denúncia relacionada à possível interferência do apresentador no período de estivação de jacarés no Pantanal. Segundo o conselho, não havia elementos que comprovassem infração ético-disciplinar naquele caso, e Rasmussen apresentou documentos relativos às autorizações para o manejo dos animais.
O episódio demonstra que as críticas à atuação do apresentador precisam ser analisadas caso a caso, distinguindo acusações, autuações administrativas e conclusões dos órgãos responsáveis pela fiscalização.
Participação na política ambiental do Pará
A entrada de Rasmussen no Conselho Consultivo Estratégico da Semas foi anunciada por Vinícius Borba, indicado pelo governador eleito Daniel Santos (Podemos) para comandar a secretaria na próxima gestão estadual.
A proposta é formar um grupo com especialistas e nomes de projeção nacional para contribuir com discussões sobre políticas ambientais, conciliando preservação, desenvolvimento econômico e respeito às populações. A composição completa e as atribuições do conselho ainda deverão ser detalhadas.
A escolha de Rasmussen ocorre em meio ao debate sobre os critérios utilizados para selecionar os integrantes de um grupo que pretende contribuir com decisões ambientais no Pará. A experiência em divulgação da biodiversidade e o alcance público do apresentador podem ampliar a visibilidade das discussões, mas seu histórico de controvérsias também tende a provocar questionamentos sobre a composição do colegiado.
Em um estado estratégico para a conservação da Amazônia, a atuação do conselho será acompanhada pela forma como suas recomendações serão construídas e pelo peso dado ao conhecimento técnico, à legislação ambiental e às necessidades das populações que vivem no território.
Fonte: Estado do Pará Online, por Mayra Peniche. Publicação original: 13/10/2026 às 16:48.
Foto: Imagem da publicação de Estado do Pará Online (autoria não identificada automaticamente).